Novembro azul: Cuidar da saúde também é coisa de homem

27-11-17 FIG 0 comment

O mês marca as campanhas de conscientização sobre a doença, uma das que mais afetam a população masculina. A comunidade é chamada para um diálogo franco e aberto a respeito do câncer de próstata.   A iniciativa que partiu de um grupo de amigos reunidos em um pub, na Austrália - empreender uma campanha contra o câncer de próstata -, se espalhou pelo mundo e vem ajudando, em muito, a população masculina. Assim surgiu o Movember, junção entre os termos mustache (bigode, em inglês) e november, que chegou ao Brasil como Novembro Azul, no fim dos anos 2000. Aqui, a campanha começou a ganhar notoriedade por meio de instituições privadas e públicas comprometidas em realizar ações que objetivam informar e conscientizar a população sobre a importância dos cuidados com a saúde do homem e com a detecção precoce da doença - o câncer mais comum e a segunda maior causa de morte por câncer entre eles. Justificativas para o movimento não faltam, como exemplifica o ocorrido com o ator norte-americano Ben Stiller. Acostumado a realizar o rastreamento, os famosos exames PSA e de toque retal, o comediante recebeu o diagnóstico, aos 47 anos, e pôde se tratar a tempo de evitar o pior. “Fazer o teste PSA salvou minha vida. Literalmente”, disse ele aos quatro ventos numa tentativa de mostrar ao mundo a importância dos testes que têm sido alvo de polêmica entre entidades que propõem sua dispensa como ação de política pública de saúde e as que, ao contrário, defendem a indicação.   Enquanto o debate toma corpo, pessoas como Adão Aparecido de Oliveira, aposentado, de 55, e Roberto João Gouvêa, de 66, engenheiro civil, que participaram desta reportagem contando como descobriram e venceram a doença, reafirmam a importância dos testes e rechaçam o preconceito: “Se alguém me diz que tem vergonha ou receio de fazer o exame de toque retal, que dura poucos segundos, concluo que ele tem vergonha e receio de viver. Pensar assim não é sinal de virilidade, mas ignorância. A prevenção e o cuidado são os melhores remédios”, afirma Adão. “Não entra na minha cabeça a ideia de você não se prevenir. Ouço casos assim com muita tristeza. Mesmo que seja tendência mundial o debate a respeito do rastreamento, não vejo nexo na dispensa dos exames. A melhor forma de se livrar desse mal é se precaver”, reflete Roberto João. A opinião de quem já passou e superou a doença tem razão de ser: segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), mais de 1,2 milhão de novos casos de câncer de próstata ocorrem anualmente no mundo, gerando a expectativa de mais de 335 mil óbitos no mesmo período (segundo dados de 2013, que revelam aumento em relação a 2012 de 9,7% e 9,2%, respectivamente). No Brasil, a estimativa é chegar ao fim de 2017 com 61,2 mil casos novos e cerca de 13.772 óbitos, o que significa que é o segundo tumor que mais mata os homens no país, perdendo apenas para o câncer de pulmão. A boa notícia é que a população está, sim, mais informada e consciente, muito em função da campanha Novembro Azul, que prevê ações durante todo o mês e em especial no dia 17, data marco para o combate à doença. Para este ano, inúmeras atividades serão realizadas numa tentativa de diminuir as estatísticas. Uma delas é a distribuição da cartilha Câncer de próstata: precisamos falar sobre isso, desenvolvida pelo Instituto Nacional do Câncer (INCA). Outra notícia positiva vem da inovação tecnológica que traz novos recursos em diagnósticos e em alternativas menos invasivas para o tratamento da doença, inclusive com o auxílio da robótica nas cirurgias. “Enfrentei e venci a doença" Os médicos indicam que homens acima dos 50 anos devem fazer exames de rastreamento. Se há casos na família, o checape específico precisa ser realizado mais cedo. Quem já viveu o mal reforça o alerta    O paulistano Roberto João Gouvêa, de 66 anos, engenheiro civil, começa a conversa contando a história do pai, que descobriu por acaso o câncer de próstata na década de 1980, época em que não havia campanhas como o Novembro Azul. “Ele foi diagnosticado antes dos 60 anos, por um golpe de sorte, pois sentiu um incômodo após uma cirurgia de catarata e acabou sendo atendido no plantão de um excelente urologista. Descobriu o problema bem no estágio inicial, tratou, ficou curado, e hoje está aí, com 93 anos”, comemora o filho. A partir do episódio, Roberto recebeu a indicação de fazer o rastreamento regularmente. “Comecei a fazer PSA cedo, por volta dos 40 anos. Ia tudo normal até 2009, quando houve alterações no exame e fui diagnosticado também com um tumor maligno em estágio inicial.” Ele conta que estava prestes a se casar pela segunda vez, mas se lembra de que, mesmo frente às possíveis sequelas provocadas pelo tratamento - as temidas incontinência urinária e disfunção erétil -, fantasmas que assombram a maioria dos pacientes e reforçam o preconceito em torno da doença, pesou mais o desejo de se ver livre do tumor. “Pensei o seguinte: vou fazer a cirurgia e posso ficar impotente, mas ouvir dizer que todo morto é impotente, então...”, brinca. Quando contou o diagnóstico para a noiva, Roberto recebeu muito apoio. “Ela, que já esteve próxima a pessoas que lutaram contra o câncer (inclusive um filho que venceu a leucemia), foi absolutamente solidária e incentivadora para que eu fizesse a cirurgia. Marcou-me uma conversa em que falei que estávamos prestes a construir uma história e me via preocupado com a possibilidade de o 'bicho' não voltar a funcionar. Positiva, ela afirmou que, nesse caso, daríamos um outro jeito.” Com o diagnóstico confirmado, ele procurou médicos para avaliar que tipo de tratamento poderia recorrer: radioterapia, cirurgias aberta ou por laparoscopia. “Consultei-me com vários especialistas e ouvi opiniões diferentes antes de decidir. Por fim, como sou muito assertivo, preto no branco, procurei o Hospital do Câncer, de excelência na área, e cheguei ao médico urologista Francisco da Fonseca. Saí de lá com cirurgia marcada para dois meses à frente.” O engenheiro sentiu medo de a doença avançar nesse período, como conta, mas descobriu que o câncer de próstata tem progressão lenta na maioria dos casos. Assim, se submeteu à cirurgia aberta no dia marcado. “Naquela época, a tecnologia não era tão avançada como hoje, mas confiei nas mãos do médico para não 'cortar nenhum fio errado'. Graças a Deus, correu tudo bem e a recuperação foi espetacular. Nunca tive incontinência e, depois de quatro ou cinco meses, retomei a atividade sexual normalmente, de acordo com qualquer homem saudável da minha idade.” GRUPO DE RISCO Ativo também no trabalho e na vida social, Roberto lembra que ainda não é considerado um paciente curado. Mas reforça: “Fui um afortunado, fiz a lição de casa para não ser pego desprevenido e enfrentei o câncer de próstata”. O engenheiro ressalta ainda a importância de exames PSA e de toque retal para a detecção precoce da doença, recado que transmite para homens com histórico familiar da doença, como ele, mas também para a comunidade masculina em geral. “Todo homem faz parte do grupo de risco, pois tem próstata.” Quando questionado a respeito da posição de entidades que vêm dispensando o rastreamento do câncer de próstata como protocolo de programas de saúde pública (saiba mais na página 5), o engenheiro é taxativo. “Para mim, é uma postura absurda. Meu pai descobriu a doença por acaso, com menos de 60 anos, e provavelmente não estaria vivo senão por essa sorte. Sei de todo o estigma em torno do exame de toque retal, das gozações – principalmente em camadas culturais mais baixas –, mas é um exame muito rápido e de extrema importância, assim como o PSA. A prevenção e o cuidado são os melhores aliados do homem que dá valor à vida”, reforça. Antes dos 50 anos Na mesma faixa etária do ator Ben Stiller, aos 46 anos - antes da idade geralmente indicada para o início dos exames de rastreamento -, o controlador de almoxarifado aposentado Adão Aparecido de Oliveira foi diagnosticado com câncer de próstata. “Minha sorte é que sempre fui atento e realizava exames periódicos de PSA com os de rotina, como hemograma, colesterol e glicose. Aí o resultado veio alterado”, revela. Oliveira segue o relato lembrando do baque que levou com o diagnóstico confirmado pela biópsia. “Por mais que a gente se ache esclarecido, até autodidata em alguma coisa, é comum acreditar que o câncer de próstata só afeta homens acima de 60 anos. Então, levei o maior susto. Lembro-me de que saí do consultório chorando igual a uma criança e pensei: estou morto.” Ainda abalado, ele procurou uma segunda opinião médica e também se consultou com a psicóloga Adriana Duarte, especialista em pacientes oncológicos, uma ajuda que aponta ter sido fundamental. “Com tudo isso, o astral foi melhorando e ganhei mais confiança para encarar o tratamento de braquiterapia (radioterapia interna).” APOIO FAMILIAR Após o tratamento, Adão ressalta que o apoio e o carinho recebidos do filho, Arthur (na época adolescente) e da ex-mulher Uilza tornaram a recuperação mais leve. “Agradeço a Deus, à família e aos amigos, pois receber a ajuda de quem se gosta é muito importante para o paciente”, diz. Recuperado, ele conta que continua a fazer os exames regularmente, além de contar a própria história para todo mundo, a fim de minimizar o estigma e o preconceito em torno do câncer de próstata. “Ouço muitas piadinhas, mas tento mudar a opinião de homens que insistem no preconceito dizendo a eles que estou vivo para contar minha história graças aos exames e à cirurgia. Por meio da atitude de cuidado com a minha saúde, venci a doença”, reforça. Oliveira lembra ainda que, no caso dele, a progressão do tumor se revelou rápida, com índices de PSA triplicados em sete meses. E avisa: “Se não descobrisse o câncer precocemente, não estaria falando com você hoje. Por isso gosto de dar meu testemunho: o câncer de próstata é muito mais comum do que a maioria acredita”. Novas tecnologias Aparelhos de precisão, drogas mais assertivas e menos invasivas e a cirurgia robótica são inovações na batalha contra a doença, favorecendo também a qualidade de vida do paciente Se os números não animam - no Brasil, um homem morre a cada 38 minutos devido ao câncer de próstata, segundo os dados mais recentes do Instituto Nacional do Câncer (13.772 óbitos/ano) -, os avanços tecnológicos na medicina trazem esperança. Em relação a temas como detecção precoce, precisão no diagnóstico e novidades em tratamentos cirúrgicos, o aparelho de imagem PET/CT, o fármaco PSMA (usado no exame) e as cirurgias realizadas com o auxílio da robótica têm sido celebrados pela comunidade médica (leia mais no quadro).   O médico Leonardo Pimentel, coordenador do Radiocare - Centro Especializado em Radioterapia do Hospital Felício Rocho, aponta ainda o IGRT, ou radioterapia guiada por imagem, como um avanço. “No aparelho, que chegou a BH há cerca de 10 anos, uma tomografia é realizada na hora da aplicação do tratamento, o que traz como vantagem conseguir enxergar a próstata no momento da irradiação e, consequentemente, garantir margem de segurança maior na delimitação da área atingida.” O especialista também cita o IMRT, ou radioterapia com intensidade modulada, como alternativa eficaz por conseguir minimizar a radiação nos órgãos sadios, próximos à próstata. O inconveniente, no entanto, é o fato de nem todos os planos de saúde autorizarem o tratamento com tais tecnologias. “Uma outra novidade, chamada radioterapia estereotática ablativa (SABR), permite realizar todo o tratamento em apenas cinco aplicações - o que minimiza o desconforto em relação à radioterapia clássica, geralmente aplicada ao longo de oito semanas. Mas a técnica é indicada apenas para tumores de próstata iniciais e, necessariamente, precisamos usar o IGRT e o IMRT, o que depende de investimento particular ou de autorizações de planos de saúde”, avisa. Pimentel lembra que tais avanços são animadores para potencializar a chance de cura em pacientes de câncer de próstata - percentual que chega a 90% para casos descobertos precocemente. “A mortalidade do câncer de próstata é considerada baixa em relação a outros tipos da doença, principalmente se descoberto cedo e tratando-se de um tumor menos agressivo. Assim, quanto antes é descoberto, maior é a possibilidade de a doença estar restrita à glândula. Consequentemente, mais chances de cura e menos riscos de sequelas pós-tratamento.” Cirurgia robótica já existe em BH O médico Bruno Mello Santos, doutor em cirurgia, professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e urologista da Rede Mater Dei, conta que nos anos 2000, nos Estados Unidos (EUA), foi realizada a primeira cirurgia robótica em paciente com câncer de próstata, a prostatectomia radical robótica. “A partir daí, a técnica vem ganhando popularidade”, afirma.   Entre as vantagens da nova tecnologia, ele descreve a maior precisão de ações e outros benefícios. “A cirurgia robótica permite ao médico visualizar uma imagem com mais definição, em três dimensões (3D), e alcançar regiões bem profundas. As pinças são articuladas, promovem uma dissecção mais delicada e meticulosa dos tecidos. Como uma questão primordial do tratamento de câncer de próstata é a preservação dos pequenos ramos de nervos responsáveis pela ereção, qualquer melhoria na visualização e na dissecção terá um potencial de melhora nesse resultado tão almejado”, explica. O médico revela que o uso de plataformas robóticas já é bem comum nos Estados Unidos e na Europa, e, aos poucos, vem chegando aqui, uma demora justificada muito em função do custo e da grande carga tributária envolvida na importação dos aparelhos. “A boa notícia é que centros de excelência têm investido na tecnologia. Atualmente, dispomos de algumas plataformas em Belo Horizonte, única cidade de Minas Gerais a contar com tal avanço.” Santos cita ainda a melhoria dos equipamentos de radioterapia, além das inúmeras novas drogas disponíveis, hoje, para o tratamento do câncer de próstata mais avançado. “Outras alternativas de tratamento minimamente invasivo também estão em estudo, mas, por enquanto, a prostatectomia radical, seja aberta, laparoscópica ou robótica, ainda é o padrão ouro no tratamento cirúrgico dessa doença tão comum”, ressalta. Para finalizar, o especialista reforça que o diagnóstico precoce e a identificação dos pacientes que se beneficiarão de cada tipo de tratamento são os pilares do sucesso do tratamento do câncer de próstata, e lembra que, em muitos casos, doenças pouco agressivas e indolentes permitem que os pacientes sejam apenas acompanhados sem qualquer tipo de tratamento, modalidade chamada vigilância ativa. Sintomas Em fase inicial, o câncer da próstata tem uma evolução silenciosa. Por isso, muitos homens não apresentam nenhum sintoma ou, quando apresentam, são semelhantes aos do crescimento benigno da próstata, também chamado de HPB. No entanto, quando alguns sinais começam a aparecer, 95% dos tumores já estão em fase avançada, dificultando a cura. Confira aqueles suspeitos, que merecem uma consulta ao médico: » A sensação de que sua bexiga não se esvaziou completamente e ainda persiste a vontade de urinar » Dificuldade de iniciar a passagem da urina » Dificuldade de interromper o ato de urinar » Urinar em gotas ou jatos sucessivos » Necessidade de fazer força para manter o jato de urina » Necessidade premente de urinar imediatamente » Sensação de dor na parte baixa das costas ou na pélvis (abaixo dos testículos) » Problemas em conseguir ou manter a ereção » Sangue na urina ou no esperma (esses são casos muito raros) » Dor durante a passagem da urina, quando ejacula ou nos testículos » Dor lombar, no quadril ou nos joelhos » Sangramento pela uretra SAIBA MAIS: PLANEJAMENTO Estudos comprovam que uso da tecnologia PET/CT PSMA alterou em mais de 50% o planejamento do tratamento de casos de câncer de próstata. Leonardo Lamego, médico coordenador da medicina nuclear da Rede Mater Dei de Saúde, informa que o PSMA é uma substância, um antígeno marcador específico da membrana prostática (célula cancerígena), indicado na localização da recidiva do câncer de próstata. Os estudos sobre esse marcador se iniciaram na década de 1980, porém somente em 2015 foi possível a associação do PSMA com o gálio 68, permitindo a visualização dos tecidos por ele marcados. A partir dessa associação, foi possível a realização do PET/CT, que é uma tomografia por emissão de pósitrons, associada a uma tomografia computadorizada, tornando viável a captação de imagens funcionais e anatômicas. Esse modelo de imagem permitiu a localização precisa da recorrência da doença, possibilitando então ao médico escolher o melhor tratamento para seu paciente, de acordo com a localização da recidiva do tumor e/ou suas metástases. Estudos recentes comprovaram que, após a realização do PET/CT PSMA, o planejamento do tratamento foi alterado em até 63% dos casos, diminuindo a incidência de efeitos deletérios (ou nocivos) dos tratamentos recomendados. Glossário » PET/CT: aparelho de imagem » PSMA Gálio 68: o fármaco utilizado no exame » IGRT: Radioterapia Guiada por Imagem » IMRT: Radioterapia com Intensidade Modulada » SABR: Radioterapia Estereotática Ablativa PROCEDIMENTO EM ESTUDO Disponível na Rede Mater Dei de Saúde, a cirurgia robótica ainda não consta no roll de procedimentos da Agência Nacional de Saúde (ANS), mas o grupo está em negociação com os planos para viabilizar a realização do procedimento. A expectativa é de uso mais frequente da tecnologia robótica, com redução de custo relacionada à escala de utilização do equipamento.  


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